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2025: Centenário de Tia Neiva

2025: Centenário de Tia Neiva

(Patronesse da Cadeira 45 da APLAC)

 por Xiko Mendes (Cad. nº 6)

Diretor Financeiro – APLAC

 

Menina sergipana que se fecundou nas ondas poéticas das águas do São Francisco em Propriá, Tia Neiva goianizou-se quando Goiás se renascia no despertar da Modernidade! Acompanhada de seus pais e três irmãos, Neiva Chaves Zelaya (30/10/1925-15/11/1985) passou sua infância Jaraguá-GO.  Casou-se aos 18 anos com Raul Zelaya Alonso, um chileno que era secretário de Bernardo Sayão. Teve cinco filhos. Enviuvou-se aos 22! E na tessitura mágica do seu destino, reergueu-se mulher sozinha, independente e livre. Repaginou-se: virou fotógrafa, agricultora, frentista, costureira…

No projeto de colonização agrícola que se tornou Ceres (anos 1940) – homenagem à deusa da colheita fecunda – Bernardo erguia castelo de sonhos de centenas de nordestinos, fugindo da Caatinga como os pais de Neiva, e que para ali se resvalavam, sedentos, à procura de Barrancas (Rialma). Neiva ali morou e fotografou o pálido silêncio das paisagens testemunhando a luta de uma guerreira nordestina que imaginava ter asas para sobrevoar o Brasil. Com ajuda de Sayão, o engenheiro-artesão que lapidava desejos erguendo cidades e estradas, ela veio morar em Goiânia. Neiva acabara de se tornar a primeira mulher motorista do Brasil! Volante e boleia se tornavam suas asas para percorrer nosso país.

Sua vida em trânsito a levaria para urdir o próprio destino entre Goiânia e Brasília. Sonho premonitório de Dom Bosco, pincelado em adivinhações que prometiam refundar Canaã onde jorrariam leite e mel, a Nova Capital estava em construção. E Bernardo era, de novo, um artesão de utopias rasgando novos caminhos e redesenhando nossa cartografia. Em 1958, aos 33 anos, idade do Jesus Crucificado, Neiva, uma das moradoras da Cidade Livre (atual Núcleo Bandeirante), se redescobriu: o dom da clarividência selaria o destino dela para sempre!

Na Serra do Ouro, lá pras bandas de Alexânia, num Goiás envolto aos mistérios do Planalto Central legendário, ali Neiva e seus filhos se fixaram. E ali, num oito de novembro de 1959, o Sol brilhou radiante no topo das colinas para o nascimento da União Espiritualista Seta Branca – UESB. No meio de casinhas de taipa, rusticamente erguidas com madeira e palha, ela e seus médiuns se revezavam atendendo pacientes espirituais. Plantando roça, fazendo farinha, cuidando de um orfanato com 80 crianças e ainda sendo motorista – o frete era o principal meio de sobrevivência dessa guerreira sonhadora – Neiva viaja, entre o trânsito e o transe, no percurso Goiânia-Brasília. Veio de novo para a profética nova capital semear o mistério de sua clarividência, decifrando os segredos do teu céu desenhado no espelho d’água do Lago Paranoá, ali represado e belo desde setembro de 59. Mudou-se para Taguatinga em 1964 quando a Ditadura, como a Hidra de Lerna, começava a devorar sonhos de liberdade e utopias libertadoras.

Foi justamente nesse contexto onde a liberdade era sugada pelos porões do autoritarismo militar, que Neiva decidiu fixar-se, num horizonte livre e por ela sonhado, à margem esquerda do ribeirão Pipiripau, que canaliza as Águas Emendadas, beija e acolhe as águas do Paranoá. E bem ali de frente para colinas cuja paisagem mística, exuberante e panorâmica, de onde se enxerga uma vastidão de Cerrado idílico e donde se vê Planaltina, à meia-luz, num clarear de lua de uma Brasília épica e poética ainda matuta e se erguendo, Tia Neiva, em nove de novembro de 1969, fundou o VALE DO AMANHECER. Surgia a Ordem Espiritualista Cristã – OEC, sucessora da UESB.

Aqui começava sua missão de semear Amor e Espiritualidade, definitivamente, com as asas de uma mulher caminhoneira, livre para sobrevoar o mundo: o mundo dos mistérios da mente decifrados pela mediunidade de homens e mulheres que às margens do Pipiripau, numa gleba da antiga Fazenda Mestre d’Armas, aderiram ao projeto de resiliência espiritual que planta no coração de Brasília o resgate de sua utopia profética, a cidade do 3º milênio mergulhada no mistério da fé. Defronte ao Morro do Centenário que evoca o sonho da Independência do Brasil, e ao Morro da Capelinha onde a Via Sacra incita os olhos a compadecer o Jesus Crucificado e onde as Águas Emendadas buscam o rumo do Cone Sul, Tia Neiva, após desencarnar-se aos 60 anos, deixou como legado de sua história, o VALE DO AMANHECER: 800 mil médiuns e mais de mil templos no Brasil e no mundo afora! Eles testemunham, para a Posteridade, a missão daquela que um dia reinventou, no laboratório do “Foto Neiva”, a imagem de uma mulher cujo empoderamento feminino tornou-se símbolo de firmeza, caráter, dignidade, fraternidade e amor à Humanidade. Por tudo o que ela representa para Brasília, a Academia Planaltinense de Letras, Artes e Ciências (APLAC) incluiu Tia Neiva na sua Lista de Patronos constante do seu Regimento Interno.

 

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