Destaque

A Literatura de Cordel como um recurso pedagógico em sala de aula

A Literatura de Cordel como um recurso pedagógico em sala de aula

A simplicidade é uma marca forte da Literatura de Cordel: os relatos sobre eventos históricos, artísticos e folclóricos ganham destaque em versos destituídos de formalidade, para alcançar uma linguagem apropriada de interação com o povo sobre assuntos importantes e diversos. A expressividade e emoção com que os cordelistas apresentam suas rimas encantam a todos e faz desse gênero literário um dos mais queridos e respeitados em solo brasileiro. Para incentivar a leitura e estimular o interesse pela cultura, muitas escolas adotam a Literatura de Cordel como um recurso pedagógico em sala de aula, promovendo a participação dos alunos e o desenvolvimento criativo das produções de texto. Neste artigo, vamos conhecer detalhes sobre a Literatura de Cordel, além dos autores que se inspiraram no gênero para apresentar sua arte e todos os benefícios à formação socioemocional do aluno!

A origem da literatura de cordel:

No ápice do Renascimento em pleno século XVI, quando a arte clássica – grega e romana – se reinventou para apresentar um novo contexto de expressão e reprodução dos relatos orais dos trovadores, surgiram os primeiros passos para a popularização dos versos, desenhados sobre o papel ou superfície plana. A literatura impressa em folhetos ou panfletos ganhou toda a Europa, sendo Portugal o responsável por introduzir no Brasil, desde o início da colonização, a Literatura em Cordel – que ganhou esse nome pelo fato de os portugueses venderem seus folhetos em feiras e praças, pendurados em cordéis. O gênero teve maior expressão no interior do Nordeste e rendeu belas histórias nos relatos sobre a vida de Lampião e suas aventuras no cangaço. Toda forma de amor, lamento ou prece também   podiam servir de motivação para poetas inspirados e com talento nato para narrar as dores e as alegrias da vida pitoresca do sertão. A Literatura de Cordel também é reconhecida como um gênero crítico e informativo. Ainda que de forma divertida e descompromissada, esses poetas itinerantes levavam ao povo das cidades, as notícias e reflexões que escreviam em versos e se responsabilizavam pela impressão, divulgação e venda dos próprios trabalhos. Com boa dose de humor e ironia, os cordelistas recitavam fatos históricos e políticos, e também os dramas da população a serem resolvidos com a astúcia dos personagens que criavam para protagonizar as narrativas.

 

Características marcantes:

As particularidades do estilo literário resultaram em algumas características interessantes na concepção e abordagem dos temas, que são tradicionalmente trabalhados não apenas em versos, mas também na arte da xilogravura – o entalhamento dos desenhos em prancha de madeira para ilustrar cada história. Com uma produção simples e impressão de baixo custo, o valor de venda dos cordéis nos mercados e feiras populares era acessível a um grande público. O cordel funcionou, portanto, como forma de disseminação de valores culturais regionais, promovendo o conhecimento popular e a sobrevivência de mitos, lendas e tradições folclóricas do nordeste brasileiro. Os textos românticos eram compostos de narrativas descritivas de personagens, súplicas e preces das figuras principais, sempre girando em torno de uma problemática carecendo da capacidade de solução que só um protagonista esperto e inteligente pudesse oferecer. Há sempre um casal com impedimentos de viver o grande amor pela proibição dos pais que, com poder sobre o destino dos filhos, promoviam noivados e casamentos arranjados pelos interesses financeiros e de posses. O personagem principal ao final se tornava o herói vitorioso com o apoio, a aprovação e admiração de todos. Mesmo que o cenário não o favorecesse, com inteligência peculiar, tratava de reverter qualquer situação desfavorável à sua felicidade.

 

Principais autores:

A Literatura de Cordel sempre teve grande apelo popular. Ainda hoje estimam-se mais de quatro mil cordelistas vivendo de suas composições, que versam sobre diferentes assuntos e acontecimentos. Elencamos alguns já bastante renomados por sua contribuição à arte:

 

  • Antônio Gonçalves da Silva (Patativa do Assaré)
  • Cuica de Santo Amaro;
  • Firmino Teixeira do Amaral;
  • Gonçalo Ferreira da Silva;
  • Guaipuan Vieira;
  • Homero do Rego Barros;
  • João de Cristo Rei.
  • João Martins de Athayde;
  • José Alves Sobrinho;
  • Leandro Gomes de Barros;
  • Manoel Monteiro;
  • Téo Azevedo.

 

Um dos personagens mais queridos da Literatura de Cordel é João Grilo – fictício nos contos populares em Portugal e também no Brasil, trata-se de um anti-herói, de aparência frágil e tola, mas com grande astúcia e capaz de se desvencilhar das mais complexas enrascadas. Selecionamos um trecho do poema de João Martins de Athayde intitulado “As Proezas de João Grilo”, para apresentar o estilo de linguagem e as características do personagem: João Grilo foi um cristão / Que nasceu antes do dia / Criou-se sem formosura / Mas tinha sabedoria / E morreu depois das horas / Pelas artes que fazia. […] João Grilo chegou na corte / Cumprimentou o sultão / Disse: pronto, senhor Rei / (deu-lhe um aperto de mão) / Com calma e maneira doce / O sultão admirou-se / Da sua disposição.

 

Formas de utilização da Literatura de Cordel em sala de aula:

Um conteúdo trabalhado de forma dinâmica e surpreendente pode configurar estratégia eficiente tanto na construção do conhecimento como no aprimoramento do aprendizado. A didática tradicional, acusada de falta de interatividade e conexão pedagógica, pode se servir da simplicidade dos versos em cordel para aproximar os alunos de alguns temas. Encontrar o tom da participação do aluno em sala de aula é fundamental para que o professor consiga desenvolver a capacidade de absorção com reflexos satisfatórios no comportamento, aproveitamento e resultados. Ao levar os princípios da Literatura de Cordel para dentro da sala de aula, qualquer conteúdo poderá ser assimilado e descrito em versos pelos próprios alunos. O ritmo cadenciado, as métricas e as rimas do texto não apenas instigam a capacidade de criação como favorecem e memorização. Além disso, a leitura de cordéis já consagrados ajuda a resgatar a memória de fatos históricos que não se devem perder no tempo. Pode-se inicialmente introduzir a abordagem do gênero literário em disciplinas como Português, Literatura e Produção Textual, ampliando o conhecimento de mundo, o repertório cultural, a empatia e a criatividade textual. Posteriormente, é possível aplicá-lo às demais disciplinas (História, Geografia, Ciências), de forma a servir-se do estilo para o desenvolvimento e a assimilação de conteúdos. Para além do trabalho desenvolvido em sala de aula, é possível ainda promover eventos com apresentações culturais — teatro, dança, música, poesia — tendo como pano de fundo a Literatura de Cordel, oportuniza a participação da família para acompanhar o desempenho escolar dos seus filhos ao mesmo tempo em que fortalece os vínculos e aprendizados mútuos.

 

Benefícios para o aluno:

A Literatura de Cordel tem base na oralidade, e lançar o desafio para os alunos em sala de aula pode ajudar a desenvolver a inteligência, o senso crítico, a capacidade de oratória e a organização das ideias. Ao falar de amor, de enfrentamentos e desafios, cada aluno terá a oportunidade de se conectar com as emoções e desempenhar um papel diferente do qual está acostumado, percebendo as variações da existência humana e como é possível adaptar-se para ser bem-sucedido.

Por fim, a Literatura de Cordel, quando aplicada em sala de aula, pode restabelecer o contato com elementos populares de grande relevância para a formação cultural e histórica do país. Personagens, fatos e valores esquecidos com o passar do tempo, podem ser facilmente recuperados com o auxílio do cordel. Temas que poderiam passar despercebidos pela ausência de estudo e estímulo, podem vir a ser valorizados e recitados em voz alta pelos jovens.

_____________

In: escoladainteligencia.com.br/blog/como-trabalhar-com-a-literatura-de-cordel-nas-escolas/ Acesso em: 24/05/2026

 

Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo